Autgrafo del comienzo de "El Arte de la fuga"  de J.S.Bach
ISSN 1887-1771
       
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António Rodil (c.1710-1787), flautista, compositor e professor.

22/01/07.
Sección de Temas de Historia

A importante carreira de António Rodil destaca-se pela sua intensa actividade, em Portugal, como primeiro flauta na Orquestra da Real Câmara de Lisboa. A sua obra para flauta, o seu percurso enquanto professor e instrumentista, são elementos conjunturais responsáveis pela projecção e divulgação do instrumento, na segunda metade do século XVIII e início do século XIX, no contexto historiográfico nacional.

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António Rodil nasceu em Espanha no início do século XVIII e veio falecer em Lisboa a 13 de Julho de 1787.1 A conjectura interna do país durante o reinado de D. José I permitiu atrair e fixar os melhores artistas europeus ao serviço da corte real. Neste enquadramento, Rodil, após concluir uma digressão por Inglaterra em 1774, decidiu estabelecer-se definitivamente em Lisboa. No entanto, segundo apurou Joseph Scherpereel, nos registos do Erário Régio existe uma folha de pagamento a António Rodil, mencionando que este já teria dado entrada ao serviço da orquestra em 1 de Novembro de 1765 como oboista.2 Consequentemente, veio a integrar a Orquestra da Real Câmara de Lisboa, como primeiro flautista até 1783, quando seria substituído por seu filho Joaquim Pedro Rodil (c.1774-1834).

Neste período, a Orquestra da Real Câmara de Lisboa, considerada uma das mais conceituadas do género, em toda a Europa, contava nos seus efectivos com dois flautistas, Rodil na primeira flauta e António Herédia (?-1828) na segunda flauta.3 Com efeito, a Real Capela de Lisboa, agora convertida em Orquestra de Câmara, só viria a contemplar flautistas no seu conjunto a partir da segunda metade de setecentos, uma vez que na primeira metade só se encontravam no naipe de instrumentos de sopro apenas os oboés. Esta realidade foi semelhante à da Real Capilla de Madrid, uma vez que só em 1748, Luis Misón (c.1720-1766), famoso flautista e oboista, entrou ao serviço da Capela Real espanhola.4 Curiosamente, o percurso artístico de Misón é muito parecido com o de Rodil, para além da sua intensa actividade enquanto flautista, também se dedicou à composição, como se testemunha pela sua obra para flauta Seis Sonatas a Flauta Trabesiera y Viola Obligadas, echas para el Exmo. Sr. el Senõr Duque de Alba, por Dn. Luis Misón.5

Como é possível verificar, António Rodil foi um excelente flautista e oboista, como constatou Richard Twiss: “I Had Likewise the Pleasure of Hearing Mr. Rodil a Spaniard, Whose Skill on German Flute and Hautbois is Now Well Known in London”.6 O seu percurso artístico não se circunscreveu apenas às suas responsabilidades com a Orquestra de Câmara; ele apresentava-se também regularmente a solo em saraus musicais promovidos pelas grandes casas aristocráticas da capital. A tradição da prática da música instrumental, assim como da dança nos salões privados da alta sociedade aristocrata verifica-se ao longo de todo o século XVIII. Contudo, é nos finais do século, assim como nas primeiras décadas do século XIX, que viria a adquirir particular interesse, e maior atenção e projecção no plano musicológico actual, face ao amplo domínio da ópera e da música religiosa de estilo operático, de importação ou de influência italiana.

Neste contexto, é precisamente na década de 1770-80 que surgiram Sei Sonata per Flauto Traversiero e Basso de António Rodil. Este grupo de sonatas representa para a historiografia do repertório setecentista da flauta em Portugal, a obra de maior relevo para o instrumento. Nesta sequência, e a partir sensivelmente de 1765, é possível constatar que a divulgação da flauta e do seu repertório em Portugal ficou em grande parte associado à carreira de Rodil.

Das suas composições destacam-se ainda os Seis Duetts per duos Flauto Traversiero. Este tipo de obra, assim como as suas sonatas terão sido provavelmente escritas para seu uso próprio e utilizadas nos concertos realizados na Assembleia das Nações Estrangeiras, em Lisboa.

Quanto às Sei Sonata per Flauto Traversiero e Basso foram editadas em Londres por volta de 1777. Quanto ao período em que foram escritas, não existe nenhuma informação; no entanto, Rodil ao dedicar este trabalho ao seu patrono, D. José I, e sabendo-se que entrou ao serviço da Orquestra Real no ano de 1765, é possível considerar-se o período entre 1765 e 1777.



Sei Sonate a Solo per Flauto Traversiero e Basso de António Rodil

Sei Sonate a Solo per Flauto Traversiero e Basso de António Rodil

Em linhas gerais, a música de Rodil é característica do final do século XVIII, contendo todos os ingredientes típicos do repertório instrumental de salão do estilo galante. As suas melodias são fluentes, com ritmos cativantes e uma ornamentação constante e exuberante. Com efeito, todas as sonatas partilham destes princípios, com base numa relativa facilidade de execução e de percepção fácil para o ouvinte. De facto, a forte influência exercida pela obra de C. P. E. Bach nos compositores da época parece ter chegado praticamente a toda a Europa. Mesmo não sendo possível apurar com rigor se o experiente e viajado Rodil contactou directamente com a sua obra, é visível contudo, a presença de uma escrita partilhada pelos mesmos princípios. Elementos como a multiplicidade de esquemas rítmicos que se alternam constantemente, breves figuras pontuadas, appoggiaturas, trilos, mordentes, células e escalas assimétricas que traduzem musicalmente um carácter inquieto e efervescente na obra de C. P. E. Bach, são também aspectos estéticos presentes na obra de Rodil.

Estas são as principais características da sua escrita, assim como da própria música instrumental que se praticava nos circuitos culturais da época. Contudo, Rodil era um excelente flautista e, por sua vez, nem sempre procurava a simplicidade. Demonstrava um conhecimento técnico do instrumento que o conduziu a explorar o seu lado virtousístico, principalmente nos andamentos rápidos da Sonata VI. Esta última sonata, composta em Fá M, reflecte uma escrita flautística capaz de reproduzir todo um conjunto de qualidades expressivas e técnicas do executante. O material temático é apresentado bem estruturado e plenamente desenvolvido, seguindo uma linguagem musical elegante e virtuosística. Verifica-se também que, à semelhança do que sucedeu com C. P. E. Bach no seu andamento Poco Adagio da Sonata nº 4 em Lá M (Wq.55/4), Rodil procurou explorar nos andamentos lentos todo um leque de expressões repletas de sentimentalismo e galanterie, próprios de um artista latino.

A importante actividade artística de António Rodil, seria seguida pelo seu filho Joaquim Pedro Rodil, o qual obteve toda uma formação musical e primeiros ensinamentos na flauta sob orientação do seu pai. Seguindo os passos do mestre António Rodil, Joaquim viria a ser um dos mais notáveis flautistas da sua época, destacando-se como primeiro flauta da Orquestra do Teatro de S. Carlos entre 1808 e 1825.

Para a historiografia musical, e nomeadamente para o estudo da flauta traversa em Portugal, a figura central de Rodil e seu percurso artístico enquanto flautista, compositor e professor, teve repercussões importantes na divulgação da flauta e seu repertório, no meio musical interno. Responsável pela projecção do instrumento no panorama artístico nas últimas décadas de setecentos, e consequentemente afirmação da flauta traversa no século XIX, Rodil deixou uma marca relevante para a história da música portuguesa.


Alexandre Andrade


  • 1VIEIRA, Ernesto, Diccionário Biographico de Músicos Portugueses, 2 vols., Lisboa, Tipografia Matos, Moreira e Pinheiro, 1900, [vol. II], p. 261.
  • 2 SCHERPEREEL, Joseph, A Orquestra e os Instrumentistas da Real Câmara de Lisboa de 1764 a 1834, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1985, p. 31.
  • 3Idem p. 58.
  • 4 Cf. MORENO, Antonio Martín, Historia de la Música Española – Siglo XVIII, Madrid, Alianza Editorial, 1996, pp. 269-270.
  • 5Cf. Ibidem.
  • 6 TWISS, Richard, Travels through Portugal and Spain in 1772 and 1773, Londres, G. Robinson, T. Becket e J. Robson, 1775, p. 10.

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